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Longevidade vai além dos exames: hábitos aos 30 e 40 anos podem definir como será a saúde na velhice

Alan Milani
Longevidade vai além dos exames: hábitos aos 30 e 40 anos podem definir como será a saúde na velhice
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Prevenção começa décadas antes dos primeiros sinais do envelhecimento; controle da pressão, glicemia, colesterol, composição corporal, atividade física e rastreamentos adequados ajudam a reduzir riscos, mas especialistas alertam que exames isolados não garantem uma vida mais longa

Viver mais deixou de ser o único objetivo quando o assunto é longevidade. O desafio da medicina moderna é ampliar também o chamado período de vida saudável: chegar aos 60, 70, 80 anos ou mais preservando mobilidade, cognição, independência e capacidade de realizar as atividades do cotidiano.

E essa construção pode começar muito antes da terceira idade.

Doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer, doença renal crônica e outras condições associadas ao envelhecimento podem ter fatores de risco presentes durante anos antes do aparecimento de sintomas.

Segundo a endocrinologista Jaqueline Fernandes, especialista em longevidade, alterações que se manifestam clinicamente aos 60 ou 70 anos podem começar a se desenvolver silenciosamente décadas antes, ainda aos 30 ou 40.

A afirmação reforça uma mudança de abordagem: em vez de procurar atendimento apenas quando surge uma doença, a prevenção busca identificar riscos e intervir antes que eles produzam danos maiores.

Doenças crônicas estão entre as maiores ameaças à longevidade

A preocupação tem dimensão mundial. Segundo dados atualizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças não transmissíveis provocaram pelo menos 43 milhões de mortes em 2021, aproximadamente 75% das mortes globais não relacionadas à pandemia.

Cerca de 18 milhões dessas mortes ocorreram antes dos 70 anos. As doenças cardiovasculares responderam pela maior parcela, seguidas pelos cânceres, doenças respiratórias crônicas e diabetes.

Dados da OMS também estimam que as doenças cardiovasculares provocaram aproximadamente 19,8 milhões de mortes em 2022, o equivalente a cerca de 32% de todas as mortes no planeta naquele ano.

Parte importante desse risco está relacionada a fatores modificáveis, como tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo, obesidade, consumo prejudicial de álcool e alterações como hipertensão, glicemia elevada e colesterol alto.

Quais exames podem ajudar?

Não existe uma lista universal de exames de longevidade que deva ser realizada por todas as pessoas na mesma frequência. Idade, sexo, histórico familiar, doenças preexistentes, medicamentos, peso, pressão arterial e hábitos precisam entrar na avaliação.

Entre os exames que podem ser utilizados na avaliação metabólica estão glicemia de jejum e hemoglobina glicada, importantes para investigação de alterações relacionadas ao diabetes.

No risco cardiovascular, o perfil lipídico — incluindo colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos — é amplamente utilizado. Dependendo do perfil do paciente, exames adicionais, como apolipoproteína B [ApoB] e lipoproteína(a) [Lp(a)], podem contribuir para uma avaliação mais refinada do risco.

Avaliações da função renal também podem ser indicadas, incluindo creatinina, estimativa da taxa de filtração glomerular e análise de urina, conforme o contexto clínico.

Hemograma e outros exames laboratoriais podem fazer parte da investigação individual. A proteína C reativa ultrassensível, por exemplo, pode ser utilizada em situações específicas como informação complementar na avaliação do risco cardiovascular, mas não deve ser interpretada isoladamente.

Pressão arterial não pode ficar fora da prevenção

Nem tudo depende de exame de sangue.

Pressão arterial, circunferência abdominal, peso, composição corporal, condicionamento físico, histórico familiar e estilo de vida fornecem informações fundamentais.

Uma pessoa pode apresentar peso considerado normal e, ainda assim, ter excesso de gordura abdominal, baixa quantidade de massa muscular ou alterações metabólicas.

Por isso, olhar apenas para o número da balança pode esconder riscos importantes.

Rastreamento do câncer depende da idade e do risco

Outro pilar da prevenção é o rastreamento de determinados cânceres, mas aqui também é necessário evitar a ideia de que quanto mais exames, melhor.

Mamografia e rastreamento do câncer do colo do útero, por exemplo, possuem critérios específicos. Outros exames podem ser indicados de acordo com idade, histórico familiar e risco individual.

O próprio INCA destaca que rastreamentos devem considerar a relação entre benefícios e possíveis danos. Em posicionamento publicado em 2025 sobre câncer de mama, o Instituto ressaltou que a realização de mamografias em determinados grupos etários deve considerar as evidências disponíveis.

No caso do câncer de próstata, a decisão sobre exames em homens sem sintomas também exige discussão individualizada com profissionais de saúde, considerando riscos e benefícios.

Ou seja: prevenção não significa realizar indiscriminadamente todos os exames disponíveis.

Um adulto de 35 anos pode exigir mais atenção que alguém de 60

A idade cronológica não determina sozinha o risco de adoecimento.

Uma pessoa de 35 anos com obesidade, hipertensão, diabetes, sedentarismo, tabagismo ou forte histórico familiar de doença cardiovascular pode demandar acompanhamento mais intenso do que alguém de 60 anos fisicamente ativo, metabolicamente saudável e acompanhado regularmente.

É justamente nesse ponto que a medicina preventiva ganha relevância: o objetivo é compreender o risco individual, e não simplesmente seguir uma lista de exames baseada na idade.

Exame não previne doença sozinho

Esse talvez seja um dos principais alertas quando o assunto é longevidade.

Realizar exames todos os anos, guardar os resultados e manter os mesmos hábitos pode ter pouco impacto sobre o futuro da saúde.

Os exames identificam alterações e ajudam a estimar riscos. A prevenção acontece quando essas informações resultam em intervenções apropriadas: melhorar a alimentação, controlar a pressão, tratar diabetes ou colesterol elevado quando necessário, abandonar o cigarro, reduzir consumo prejudicial de álcool, dormir adequadamente e praticar atividade física.

A OMS aponta tabagismo, inatividade física, alimentação não saudável e uso prejudicial de álcool entre os principais fatores comportamentais associados às doenças crônicas não transmissíveis.

Músculos também fazem parte da longevidade

Preservar massa muscular ganha importância conforme a idade avança.

A perda progressiva de força e massa muscular pode comprometer mobilidade, equilíbrio e independência, especialmente na terceira idade.

As recomendações da OMS orientam adultos a realizar entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento dos principais grupos musculares em pelo menos dois dias da semana.

Para idosos, atividades voltadas ao equilíbrio e à capacidade funcional também ganham relevância.

O problema é que o sedentarismo permanece elevado. Dados da OMS indicam que cerca de 31% dos adultos no mundo não atingem os níveis recomendados de atividade física.

Não existe exame milagroso para longevidade

A expansão do mercado de longevidade trouxe exames avançados, testes genéticos, biomarcadores e diferentes estratégias para tentar estimar a chamada “idade biológica”.

Algumas tecnologias podem ter utilidade em contextos específicos, mas isso não transforma grandes painéis laboratoriais em garantia de saúde futura.

Antes de buscar dezenas de exames sofisticados, controlar fatores bem estabelecidos — pressão arterial, glicemia, colesterol, tabagismo, atividade física, alimentação, peso e composição corporal — continua sendo uma das estratégias mais importantes.

A mensagem é simples: viver mais e melhor provavelmente será resultado menos de um exame extraordinário realizado aos 70 anos e mais das decisões repetidas durante décadas.

A longevidade começa muito antes da velhice.

Referências: Organização Mundial da Saúde (OMS), informações sobre doenças cardiovasculares, doenças crônicas não transmissíveis e recomendações de atividade física; Instituto Nacional de Câncer (INCA), orientações e posicionamentos sobre rastreamento de câncer; entrevista da endocrinologista Jaqueline Fernandes à GQ Brasil.

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